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O que é um livro apócrifo e porque o seu conteúdo é objeto de tanta polêmica? E-mail
  
Sáb, 26 de Dezembro de 2009 13:03

 

 

A palavra apócrifo desperta nos cristãos os mais diversos sentimentos. Alguns, mais curiosos, se esforçam por achar na Internet um trechinho que seja de algum livro apócrifo para saber do que ele trata. Outros, advertidos por líderes temerosos por confundir suas ovelhas, evitam sua leitura como se fosse obra do próprio Satã. Mas o que é um livro apócrifo e porque o seu conteúdo é objeto de tanta polêmica?

A palavra grega apócrifo significa oculto, secreto, algo que está velado. Entre os eruditos essa palavra é usada para designar os livros que não gozam da mesma autoridade dos livros que constam atualmente na nossa Bíblia. Nós evangélicos consideramos apócrifos sete livros e alguns acréscimos aos livros de Daniel e Ester presentes na Bíblia católica. Os sete livros são: Tobias, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Judite, Baruque e I e II Macabeus. Os católicos preferem chamá-los de deuterocanônicos, ou seja, que foram canonizados numa segunda oportunidade (dêutero=segundo). Como estes livros foram escritos antes do advento de Cristo, estão incluídos entre os livros do Antigo Testamento. Tais livros jamais foram aceitos pelo judaísmo oficial (o cânon judaico foi fixado em 90 d.C., na cidade de Jâmnia) e foram motivo de divergência entre os próprios padres da igreja dos primeiros séculos. Lutero considerou estes livros úteis para leitura, mas não os pôs entre os canônicos, ou seja, para Lutero, tais livros não eram inspirados por Deus. Em 1546, depois de acalorada discussão entre os bispos, o Concílio de Trento declarou que os escritos apócrifos eram tão inspirados quanto os demais livros presentes na atual Bíblia utilizada pelos evangélicos. Tal decisão tornou definitiva a diferença entre a Bíblia católica e protestante.

Mas porque Lutero considerou os livros apócrifos como "úteis para a leitura" se não são considerados inspirados? Bem, não recusamos os livros escolares apenas porque não são inspirados por Deus. Negar a inspiração de um livro considerado apócrifo significa apenas que não devemos utilizá-lo como fundamento para alguma doutrina, como fazem os católicos que citam textos de II Macabeus para apoiar a doutrina da oração pelos mortos, o purgatório e a intercessão dos Santos (cf. 12,28-45; 15,11ss.). Lendo os apócrifos temos a oportunidade de conhecer a cultura judaica dos primeiros séculos que antecederam o nascimento de Cristo. Podemos perceber o sentimento nacionalista judaico do II século a.C. lendo Judite e Macabeus; a repulsa dos judeus à idolatria lendo os acréscimos ao livro de Daniel (Bel e o dragão); e compreender o contexto histórico do chamado período inter-bíblico lendo I Macabeus. Este último livro nos revela, por exemplo, que o helenismo (cultura grega difundida por Alexandre, o Grande) influenciou de tal modo o povo judeu que vivia na Palestina que parte do povo passou a se envergonhar da sua circuncisão: "E alguns dentre o povo apressaram-se em ir ter com o rei, o qual lhes deu autorização para observarem os costumes pagãos [e eles] restabeleceram seus prepúcios e renegaram a aliança sagrada" (I Mc 1,12-15). Por outro lado é preciso cuidado, já que o judaísmo deste período estava fortemente helenizado. Essa influência acabou incorporando doutrinas estranhas ao judaísmo da época, visíveis em alguns dos apócrifos citados, mas que foram repudiadas pelo judaísmo tradicional.

Além dos apócrifos do Antigo Testamento, existem também os apócrifos do Novo Testamento. Estes são considerados espúrios tanto por católicos como por protestantes. Tais escritos podem ser divididos entre apocalipses (p. ex. apocalipse de Pedro e de Tomé) relatos da vida de Jesus (p. ex. Evangelho pseudo-Tomé e pseudo-Mateus) e epístolas (p. ex. Carta de Tibério a Pilatus e Livro de São João Evangelista). Estes livros foram escritos numa data bem posterior aos escritos neotestamentários tradicionais. A maioria deles é uma tentativa de descrever episódios não revelados nos livros bíblicos tradicionais, tais como a infância de Jesus, sua descida ao Hades, milagres fantásticos efetuados pelos apóstolos e supostas revelações misteriosas dadas por Jesus a alguns de seus discípulos. O Evangelho Árabe da Infância, por exemplo, narra o menino Jesus fazendo passarinhos de barro capazes de voar: "Ele havia feito figuras de pássaros que voavam quando ele ordenava [...] e que paravam quando ele dizia para parar" (Evangelho Árabe da Infância, cap. 35). Vemos nesses livros o quão criativo era o povo, que na falta de relatos a respeito de eventos não detalhados nos escritos canônicos, não hesitava em criá-los livremente.

 

 

 

Estudo escrito/enviado por:
Jones Mendonça
Prof. de Teologia do Instituto Beritz
 
 
Fontes:
ÁRIAS, Juan. A Bíblia e seus segredos. Tradução de Olga Savary. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
BRAKEMEIER, Gottfried. A autoridade da Bíblia: controvérsias – significado – fundamento. São Leopoldo, RS: Sinodal, Centro de Estudos Bíblicos, 2003.
LIMA, Alessandro Ricardo. O cânon bíblico: A origem da lista dos livros sagrados. Brasília, DF, 2007.
ZILLES, Urbano. Evangelhos apócrifos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
LIMA, Alessandro Ricardo. O cânon bíblico: a origem da lista dos livros sagrados. Brasília, DF, 2007.

 

Última atualização ( Dom, 17 de Janeiro de 2010 14:33 )
 

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