| Uma Questão de Amor - O contexto faz considerável diferença para interpretação desta parábola! |
|
| Dom, 10 de Janeiro de 2010 16:12 | |
Interpretação do texto de Lucas 10.29-37
O contexto faz considerável diferença para interpretação desta parábola. A parábola do bom samaritano possui um diálogo breve, o que normalmente faz as pessoas ignorá-lo, transformando-o, tão somente, em uma exortação ética para alcance de pessoas humildes e necessitadas. Muitos têm entendido esta parábola exclusivamente desta forma. O diálogo que antecede a parábola ocorre entre Jesus e um legista1, v. 25. O debate é iniciado quando o legista querendo testar Jesus focaliza a questão de se fazer algo para herdar a vida eterna. Adiante, o doutor querendo justificar-se por ter feito a pergunta, quer saber quem é o próximo (v. 29). Por certo ele ainda está perguntando o que é preciso fazer para herdar a vida eterna. Talvez o auditório composto pelos mensageiros, os setenta e dois (10.1), os discípulos (9.54, 10.23) e o doutor da lei esperavam de Jesus uma espécie de lista contendo requisitos legais a serem cumpridos para herdar a vida eterna. Neste ponto é importante assinalar que a questão de direito sobre herdar a vida eterna era assunto teológico comum no meio judaico. Jesus poderia usar a abordagem do AT, e insistir que a herança de Israel era uma dádiva de Deus, e que o homem nada poderia fazer para recebê-la, o que provavelmente encerraria um debate acalorado, entretanto, Jesus alia-se a opinião rabínica e concentra-se na lei. Neste caso, tornava-se comum os mestres (rabis) responderem perguntas com contra perguntas e os especialistas da lei (como o caso do texto), por vezes responderem citando Dt. 6.5 e Lv. 19.18, assim afirma Craig S. Keener (2004, pg. 226). Considerando o debate a partir da lei, a análise do texto sugere que o doutor estava pouco à vontade com a atitude de Jesus a respeito da lei, porque, de fato, alguns rabis de projeção acreditavam que a vida era conseguida guardando-se a lei e Jesus causava ruídos estranhos ao interpretar a lei. Segundo Kenneth Bailey (1995, pg. 79) o doutor faz a pergunta (v. 25) para saber se Jesus cria ou não que a herança se fazia disponível pela observância da lei e Jesus responde voltando-se para a lei para mostrar o que realmente significa a lei. Bailey2 continua, dizendo que a frase “Como lês?”, pode significar: Posso ouvir a exposição das suas autoridades? Neste corolário, o doutor cita Dt. 6.5 (amar a Deus) e Lv. 19.18 (amar o próximo), uma combinação comum em alguns círculos da época que no texto é ratificada por Jesus. Desta feita, o doutor e Jesus combinam a opinião acerca da lei, demonstrando que ambos sabem o que diz a lei, mas que o doutor quer provocar uma discussão específica a fim de perscrutar a lealdade de Jesus acerca dela (v. 29). Jesus parece louvar o conhecimento do doutor (v. 28), porém, demonstra querer ir além das letras legislativas. Quer saber se ele verdadeiramente está disposto a agir conforme está escrito, pois o conhecimento intelectual da lei é patente, mas o desempenho e a prática ainda era objeto de dúvida. O doutor da lei fez a sua pergunta baseado em sua cultura acerca de quem é o próximo. Kenner3 disserta o seguinte: Os mestres judeus normalmente usavam “próximo” para significar “israelitas da mesma categoria”. Levitico 19.18 quer dizer claramente “israelita da mesma categoria” no contexto imediato. Então, se visto deste modo, o doutor pode ter feito a pergunta a fim de que Jesus responda que o próximo são seus parentes e amigos judeus. O doutor fez sua pergunta em um mundo que tinha opinião formada acerca de quem era o próximo. Desta feita com essa resposta se sentiria justificado perante a lei e com a garantia da vida eterna. Contudo, o interrogador é surpreendido por Jesus com a inesperada virada da conversa.
A parábola (v. 29-37)Como é peculiar às parábolas, esta, tem como ponto crucial responder a pergunta do interlucotor. v. 30 – O relato não descreve quem era o homem que descia de Jerusalém a Jericó, um auditório judaico poderia sugerir que o viajante era judeu (Almeida, 1999, pg; 110). O homem é espancado, despojado (sem roupas) e deixado semi-morto. Semi-morto conforme o texto, é equivalente a categoria rabínica de “próximo a morte”, que significa “a ponto de morrer”. Interessante observar que no Oriente Médio o viajante é capaz de identificar o outro por sua maneira de falar ou por sua forma de vestir. Mas o homem do texto está despido e semi-morto, provavelmente inconsciente, não indicava etnia nem religião. Uma pessoa não identificada largada no caminho em estado de necessidade. v. 31 – Um sacerdote passa vê o homem e vai adiante. Supunha-se que o sacerdote evitava a impureza de um cadáver. Os fariseus achavam que contrairiam a impureza ao tocar em um cadáver. Como o homem assaltado, o sacerdote estava descendo (vindo de Jerusalém), assim, não tinha que se preocupar em não poder executar os trabalhos no templo, mas leis eram leis. O sacerdote não queria se arriscar, já que o homem parecia estar morto. Além disso, como podia estar certo que o homem ferido era um próximo. Não podia se contaminar de modo algum, nem tocando em um cadáver, nem entrando em contato com um não-judeu. Esses precedentes legais parecem ter dominado o sacerdote fazendo-o negligenciar o homem passando adiante. v. 32 – O levita tem o mesmo comportamento negligenciando o homem ferido. A palavra, igualmente, significa que o levita também descia de Jerusalém. As leis para os levitas não eram tão rígidas como as dos sacerdotes, portanto, teria in casu mais liberdade de auxiliar o homem que o sacerdote. Porém, parece que o levita queria evitar contaminação. O levita pertence a uma classe social mais baixa que o sacerdote, uma parada para ajudar o homem poderia ser entendida como crítica a interpretação da lei feita pelo sacerdote. v. 33-35 – O terceiro homem a aparecer na estrada é um odiado samaritano. Os judeus e os samaritanos tradicionalmente não tinham amor uns pelos outros. O lugar sagrado do culto, Jerazin ou Jerusalém era um dos pontos fortes dessa rivalidade. Os samaritanos tratavam com os judeus uma amarga rivalidade, que freqüentemente ocasionava hostilidades políticas no tempo de Jesus. A Mishna chega declarar: Aquele que come o pão dos samaritanos é como aquele que come carne de suínos. Deste modo os samaritanos eram publicamente amaldiçoados nas sinagogas e diariamente era feita petição a Deus para que os samaritanos não fosse participantes da vida eterna, conta Oesterley. Com efeito, Jesus poderia ter contado uma parábola acerca de um judeu de bom coração ajudando um odiado samaritano – Seria perfeito para os ouvintes. Mas ao contrário, é apresentado um samaritano como herói. Aqui, com muita perspicácia Lucas apresenta Jesus, como um Judeu que corajosamente faz o odiado e desprezado samaritano aparecer moralmente superior aos lideres religiosos daquele auditório. O texto diz que o samaritano teve “compaixão”. Uma palavra forte que tem em sua raiz a palavra entranhas e pode significar estar profundamente movido de piedade (Rienecker, 1985, pg. 127) pelo homem ferido. Interessante notar que os samaritanos não são gentios e obedecem à mesma Torá que diz que o seu próximo é o seu compatriota e consangüíneo. E ainda, ele está viajando da Judéia, assim, seria mais provável o ferido ser um próximo do sacerdote ou do levita, contudo a despeito disso, ele é quem toma atitude. O texto desenvolve uma idéia de progressão clara, pois o sacerdote descia por esse caminho (v.31), o levita atravessa esse lugar (v32), o samaritano chegou junto dele (v33). Por certo o samaritano também corria o risco de se contaminar, entretanto, mesmo com todas as considerações ele sente profunda compaixão pelo homem ferido e essa compaixão é imediatamente transformada em atos concretos. Ele presta o socorro, cuida da chagas, o conduz a uma hospedaria responsabilizando-se pelo gastos.
Surpreendentemente, o samaritano odiado e rejeitado é engrandecido naquele debate como o agente que usou de misericórdia para com o homem ferido. v. 36-37 – Jesus depois de contar a parábola faz outra pergunta ao doutor sobre qual dos três foi o próximo daquele homem. O doutor responde que foi o que usou de misericórdia. Jesus manda o doutor proceder de igual modo. O questionador de Jesus odiava os samaritanos e ainda assim é forçado a seguir o exemplo moral de um samaritano. Esta parábola forçava-o responder sua própria pergunta. Jesus não diz ao doutor da lei quem é o próximo, pelo contrário, o obriga rever seus conceitos sobre o próximo. O samaritano foi o próximo do homem ferido, não o sacerdote ou o judeu. Em outras palavras isso que é o cumprimento da lei. O significado de amor ao próximo é agir como agiu o odiado samaritano e se você quer a vida eterna, estes são os atos que Deus quer de você.
Mensagem para os dias atuais:O livro de Lucas mais ratifica a Teófilo que Jesus é um Judeu que vive diferentemente dos judeus, pois pratica a lei. Procura explicar a Teófilo que o cristianismo não é nenhuma ameaça política à autoridade romana, mas mostra que o cristianismo apesar de originar do judaísmo, busca a prática da lei. Descreve que os líderes judeus não compreendiam a lei, agindo de forma incorreta. Jesus nesta parábola toma o exemplo do samaritano para mostrar o que é cumprir a lei. Esta parábola torna claro que qualquer tentativa de auto-justificação está fadada ao fracasso, pois o padrão é alto demais e a vida eterna não pode ser adquirida pelo próprio esforço. Não obstante, a parábola mostra um padrão ético a ser seguido. O samaritano, um estranho odiado no meio judeu, demonstra amor compassivo. Desta feita, a parábola é um ataque fulminante contra o preconceito de qualquer espécie. Jesus mostra que o amor é algo se sente e que provoca uma ação. O Samaritano teve compaixão (sentiu) e fez algo para ajudar aquele homem, independentemente dos danos que lhe pudesse acarretar. A parábola apresenta um conceito objetivo do próximo. O próximo é qualquer pessoa que necessite do meu auxilio, mesmo um inimigo. Outra mensagem importante que o texto nos trás é que Deus não limita seu agir na comunidade dos crentes. Ele pode utilizar qualquer agente para expressar seu cuidado. Os salteadores ferem o homem mediante violência. O sacerdote e o levita o ferem por negligência. A oportunidade de amar o próximo não foi aproveitada, por isso tornou-se um mal.
Bibliografia Utilizada:
|
|
| Última atualização ( Dom, 17 de Janeiro de 2010 14:32 ) |

O texto está titulado pela Bíblia de Jerusalém (2002, pg. 1.809) como, Parábola do bom samaritano (Lucas 10.29-37), cuja perícope inicia-se no capítulo 9.51-62; 10.1-38. 